Argentina contra o Uruguai escreve o manual do perfeito “charlatão”

Infolatam

Por Nelson Fernández Salvidio

É para ciência política; a Chancelaria da Argentina acaba de publicar todo um capítulo de um ‘manual do perfeito charlatão’, e ainda que isso possa parecer simpático e de baixo impacto, na realidade se trata de um assunto muito grave.

Mente, mente, que algo resta. Assim se maneja o chanceler de um governo que mente sobre a inflação, que mente o preço real da taxa de câmbio, que mente quando diz que cumpre os tratados internacionais de comércio. O Uruguai prioriza o bom relacionamento, mas a falta de logros nessa estratégia complica sua postura, inclusive no interior do ‘oficialismo’(partido governante).

É incrível que o Uruguai e a Argentina estejam trançados nestes dias em uma guerra de comunicados alheios aos problemas que cada país vive, e que percam um valiosíssimo tempo em analisar uma carta e a respondê-la, enquanto os temas centrais da relação bilateral ficam estagnados.

O governo de Cristina Fernández apelou a um mecanismo que dificulta para a administração de José Mujica a definição de uma estratégia para contrariar.

É que o atual governo da Argentina não tem limites no exercício da distorção dos fatos e no uso da mentira.

E como se isso fosse pouco, apela à chantagem pública e à extorsão, manchando a discussão com assuntos que não têm nada a ver com os problemas bilaterais, e que buscam mediante ataques pessoais e à moral de servidores públicos, assustar qualquer outro que queira contradizê-los.

Não é uma visão uruguaia nem um olhar contemplativo do pequeno país frente ao grande; nada disso.

Os dois governos do Río de Plata são confrontados por assuntos vinculados à navegabilidade em seus rios compartilhados, no uso de portos como plataforma de comércio exterior, em temas energéticos e diretamente em relações comerciais.

Mas, o chanceler Héctor Timerman, que jogou forte e sujo, tira comunicados em que provoca confusão e aponta à pessoa do chefe de gabinete do Ministério de Relações Exteriores do Uruguai, Francisco Bustillo, porque justamente foi este servidor público quem deixou registros por escrito de todas as manobras feitas pela delegação argentina na comissão que administra o Rio da Prata (CARP).

Bustillo não teria feito pública denúncia alguma, mas ante cada operação argentina para favorecer uma empresa, frente a alguma extorsão ou diante de propostas desonestas, o diplomata o fez constar nas atas da comissão ou o reportou por escrito aos seus superiores, sejam o chanceler ou o presidente da República.

Isso transcendeu lateralmente e foi a própria Argentina que em suas manobras de confusão, caiu em seu próprio emaranhado e forçou que o caso se fizesse público e formal.

Ante os transcendidos e um deslize de um dos políticos de maior confiança de Mujica, Timerman golpeou o peito e pediu que se fizesse uma auditoria para não deixar dúvidas.

O “deslize” foi casual, ainda que na Argentina acreditassem que havia sido de propósito. Na realidade, o governo de Mujica maneja bastante mal a comunicação pública e as expressões “em on” e “off the record”, e em Montevidéu não assombra essas coisas.

No caso em particular dos transcendidos sobre suborno para favorecer uma empresa holandesa nas obras do canal Martín García do Rio da Prata, o “embaixador itinerante” Julio Baraibar quis diminuir a importância e em uma rádio disse que esse fato era velho e que todos o conheciam. E deu algum detalhe mais.

Obviamente com isso não lhe restou transcendência. E foi o que motivou o fato de que Argentina dissesse que era necessário investigar.

Os dois países fizeram isso com seus órgãos de controladoria da administração pública. O da Argentina disse que estava tudo bem. O do Uruguai, com a maior diplomacia possível, concluiu que a delegação argentina tinha dilatado os processos de chamado à licitação e que isso tinha prejudicado os interesses dos países e favorecido uma empresa, entre outras observações.

Chama a atenção como dois organismos de controladoria chegam a conclusões tão diferentes depois de analisar os mesmos documentos e interrogar os mesmos servidores públicos.

O Tribunal de Contas da República (TCR) entendeu que não tinha indícios claros para uma denúncia penal, ainda que isso não fosse necessariamente por considerar que estava tudo bem, senão porque as irregularidades tinham sido cometidas em Buenos Aires e os envolvidos não eram os uruguaios, dos que disseram que atuaram ajustados às normas e em defesa da transparência dos negócios com privados, senão que eram argentinos e diplomatas, que tinham imunidade diplomática.

O governo de Mujica ficou conformado com a decisão, porque não quer mais confusão com a Argentina, mas quer que se façam as obras de aprofundamento da dragagem porque em matéria de navegação, o Uruguai está em desvantagem com seu vizinho país pela demora dessa ampliação.

Ficava claro que havia irregularidades, mas não pelos uruguaios, e não existia o compromisso de levar o caso à justiça para irritar mais os argentinos.

Mas, ainda que a administração de Mujica não levasse o caso a um juiz, a justiça teve que atuar porque um privado fez uma denúncia por sua conta. Trata-se de um advogado vinculado a setores da esquerda radical, contrários ao governo, que periodicamente apresenta denúncias contra o Estado.

O Tribunal do Crime Organizado pegou a causa e ativou uma investigação. Como os documentos estão em Buenos Aires porque lá é a sede da CARP, o juiz pediu por mandado a informação das reuniões desse organismo. Pediu à Argentina, não ao governo uruguaio.

Entretanto, para confundir as coisas, Timerman emitiu uma declaração na qual se reconfortou porque o Uruguai –em seu ver- iria enviar o relatório à Justiça e nesse comunicado enredou tudo com uma velha investigação em Buenos Aires sobre importação de veículos, na qual Bustillo esteve envolvido porque era embaixador uruguaio nesse país, mas a causa foi arquivada.

O governo de Mujica sabia que a Argentina vinha pressionando (chantageando?) o embaixador Bustillo –chefe de gabinete do atual Ministério de Relações Exteriores e presidente da CARP- para que cedesse às pretensões dos delegados de Timerman. Tudo isso figura nas atas.

Neste fim de semana se acabou a ameaça e se concretizou a operação enchastre.

Mujica havia definido uma estratégia de baixa tensão, sem seguir respondendo as cartas públicas que dia após dia divulga Timerman.

Porém, dentro do governo cresce o mal-estar e a sensação de que não se pode seguir calado, porque ademais Cristina Fernández não dá nada ao Uruguai.

O comércio segue bloqueado apesar do acordo de livre comércio e as exportações uruguaias entram no mercado argentino por um funil de bico fino e arbitrário.

A relação comercial de serviços se viu seriamente afetada pelas restrições argentinas à venda de moeda estrangeira.

As obras que o Uruguai tem pendente no Porto de Nova Palmira sobre o Rio Uruguai, seguem freadas por veto argentino e se corre o risco de perder milionários investimentos e de complicar a saída de produtos agrícolas por essa via.

O acordo para comprar energia do Paraguai segue sem ser realizado porque a Argentina não autoriza a passagem de eletricidade por sua rede, ainda cobrando um pedágio interessante por isso.

As negociações por uma planta regasificadora foram se complicando com o tempo e o Uruguai perdeu tempo para concretizar essa obra.

E, além disso, neste fim de semana, a Argentina protestou outra vez sobre a planta de celulose de Fray Bentos que gerou um conflito em que militantes ‘oficialistas’ desse país, bloquearam durante anos uma ponte internacional. A Argentina acusa de “contaminação”, mas os dois países fazem cada mês um monitoramento ambiental conjunto, cujo resultado é examinado no Canadá por cientistas independentes, e se conclui que o resultado das águas do rio é excelente. Já chegaram 13 resultados mensais e a cada mês, a delegação da Argentina veta a divulgação do relatório para que não se saiba que não há contaminação.

Mujica mantém a paciência. Em seu governo cresce o mal-estar ante as chantagens e a concreção de ataques. A oposição pressiona o ‘oficialismo’ para que seja mais firme ante o Kirchnerismo.

A Argentina bate no peito e se veste com a roupa do indignado que quer transparência. Mas, justamente as atas da comissão binacional deixam claro que os uruguaios se aferraram ao cumprimento do jurídico e à defesa da transparência, e que os argentinos fizeram tudo ao contrário.

Tudo está em escrito, com letra negra sobre papel branco.

Traduzido por Infolatam

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