Equador: início caótico de campanha

Infolatam
Quito, 07 de agosto de 2012
Por Simon Pachano

Uma das razões que explica o forte apoio que deu a população equatoriana a Rafael Correa ao longo de mais de cinco anos é o descrédito dos partidos políticos. O lema “que se vayan todos”, cantado em coro nas manifestações de rua que acabaram com três governos, ilustra perfeitamente esse sentimento. Já nas urnas, os eleitores deram as costas aos partidos e a qualquer organização que pudesse ser suspeita de fazer parte do que a propaganda governamental qualifica como partidocracia. Em contrapartida, o Presidente recebeu um cheque em branco e gozou de níveis desconhecidos de aceitação.

Cabe lembrar estes antecedentes pelo o que está acontecendo nestes dias quando culminou o processo de inscrição dos partidos e movimentos políticos. O escândalo do tráfico e falsificação de assinaturas, que Infolatam destacou em sua edição da quinta-feira, 2 de agosto, encontra uma primeira explicação nessa rejeição aos partidos e em geral à política. Após ter sido uma sociedade ativa, que ia espontaneamente às ruas, agora é claramente relutante a qualquer forma de participação. A busca de assinaturas –o requisito básico para a inscrição- se tornou, então, uma tarefa quase impossível para organizações que não dispõem sequer dos voluntários para sair para recolhê-las. Frente a isso, parece que muitas delas foram à compra de bancos de dados, entre as quais poderia ser contado nada menos que a do próprio Conselho Nacional Eleitoral.

Uma segunda explicação pode provir do temor da população a assinar por organizações que não sejam a ‘oficial’, governante, o movimento Alianza País. Não cabe dúvida de que muitas pessoas preferiram não fazer pelo risco de que esses registros pudessem ser convertidos em listas negras, como ocorreu na Venezuela com a famosa lista Tascón.

Mais além destas explicações, o problema toma características muito graves caso se considere que esta será a primeira eleição dentro da nova ordem jurídico-política da denominada Revolução Cidadã. Apesar de todas as críticas que receberam os partidos e em geral as instituições políticas da velha ordem, nunca houve desconfiança na maneira em que foram administrados os processos eleitorais. Aparte de denúncias isoladas de algum candidato perdedor, as eleições foram relativamente limpas e os organismos eleitorais saíram bem posicionados. Ao contrário, esta eleição começa com uma grande dúvida a respeito do Conselho Eleitoral. Sua incapacidade para verificar a autenticidade das assinaturas e a tardia reação –somente após uma arenga do Presidente que constituiu praticamente uma ordem- gerou uma desconfiança que não se viu em ocasiões anteriores. A estreita vinculação de seus integrantes com o governo, em que vários deles participaram inclusive com o cargo de ministros, abonam essas suspeitas.

Estes episódios foram o terreno fértil para a propagação de rumores políticos. Desde o interesse do Presidente em jogar por terra a inscrição e, consequentemente, impossibilitar o processo eleitoral, até a suposição menos grave de certa dedicatória a determinadas organizações, são parte do menu destes dias. O certo é que a campanha se iniciou da pior maneira possível e os fantasmas da fraude rondarão até o último momento. Bem mais se o Presidente faz questão de que se aprove a lei de comunicação e se a Corte Constitucional permitir que entrem em vigência as disposições que limitam a ação dos meios.

Traduzido por Infolatam

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