América Latina, a nova centralidade

Infolatam
Madri, 15 julho 2012
Por José Antonio Llorente

Uma boa parte da resposta que explicaria a emergência da América Latina como uma área do planeta que tem surgido em um mercado de expansão e desenvolvimento das economias mais evoluídas teria a ver mais com a geopolítica do que com uma análise estritamente financeira.

De uma parte, o estirão da China como nova potência mundial que apresenta registros espetaculares no crescimento de seu PIB, situou o continente americano em uma faixa estratégica, entre o Pacífico e o Atlântico. De outra, a presidência de Barack Obama nos Estados Unidos marcou um ponto de inflexão no modelo de prioridades norte-americanas. Obama foi, e está sendo, o menos ‘atlantista’ dos inquilinos da Casa Branca desde o final da II Guerra Mundial. A combinação de ambas as circunstâncias históricas introduziu a Europa em certa margem periférica.

Mas, a centralidade do espaço latino-americano não se explica sozinha nem principalmente por fatores exógenos, senão também pelos endógenos: o dinamismo das principais sociedades latino-americanas e as profundas transformações socioeconômicas e políticas de determinados países-líderes na região. O grupo-bem diferente entre si, mas com um enorme efeito estabilizador— que integram Brasil, Chile e México, é um elemento decisivo da análise do caráter central da América do Sul, ao que deve ser acrescentada a seriedade e profundidade do processo de ‘reinstitucionalização’ e pacificação interna da Colômbia. A exuberância do Panamá, o constante assentamento do Peru e a solvência de países pequenos, mas seguros como Costa Rica e República Dominicana compõem um quadro de situação francamente gratificante. É verdade que outras nações latino-americanas introduzem desajustes em uma descrição homogênea da América Latina-Venezuela e a incógnita do chavismo; Cuba e seu futuro depois de Fidel Castro; Argentina e seu peculiar gerenciamento governamental e social; Bolívia e o indigenismo—, mas uma visão de conjunto projeta uma imagem com muitas mais luzes que sombras.

Ilustração El País. Espanha

Na América Latina, cujas nações se sentem plenamente proprietárias de seu futuro, recusam tratamentos paternalistas, desafiam aspirações de tutela externa e brigam por um estatuto internacional que reconheça suas capacidades presentes e suas potencialidades futuras, se dirime uma essencial batalha pela liderança regional. A ele aspira o imenso Brasil, que tem que competir com o México, mas pelo o qual valoriza lutar também os Estados Unidos depois de sua desalentada retirada há duas décadas. Para a América do Norte, o Cone Sul americano não é mais o quintal que requeria só vigilância e controle. A profunda penetração hispânica nos Estados Unidos-quase 50 milhões de pessoas que falam espanhol, com o que implica de mistura cultural e impacto político— e a abertura de mercados demandantes, não só de mercadorias, senão de produtos sofisticados (tecnologia) com grande valor acrescentado, parece estar sacudindo as convenções e tópicos que tem encarcerado no passado recente a política exterior da Casa Branca a respeito dos seus vizinhos do sul, muito versáteis, ademais, em suas relações com a República Chinesa, que lhes requer de maneira progressiva uma ampla faixa de matérias primas.

Nesse cenário prometedor —certamente não isento de riscos como podemos comprovar recentemente na Argentina e Bolívia e, antes, na Venezuela— a Espanha desempenha um papel específico e decisivo. Específico porque a vinculação com os países latino-americanos contribui com uma solidez histórica reforçada pela comunidade idiomática — no caso do Brasil, o espanhol e o português convivem com facilidade e empréstimos recíprocos— e a afinidade cultural e de hábitos. E decisivo porque tanto pelo anterior como pelo entendimento entre aquelas sociedades e esta fazem dos países latino-americanos o espaço natural da internacionalização das nossas empresas e conformam os mercados nos quais a Espanha poderia relançar setores produtivos importantes impulsionando as exportações.

A presença espanhola na América Latina não é um ideal, senão uma realidade pujante. O sistema bancário espanhol quantificou seu negócio ali em mais de 600 bilhões de euros. As duas grandes entidades —Santander e BBVA— obtêm entre 50% e 68% de seu lucro, especialmente nos mercados financeiros do Brasil e do México. A bancarização da América Latina constitui uma expectativa verdadeiramente prometedora para o sistema financeiro espanhol, lastreado agora — para além do razoável— pelos ratings que disciplinam com dureza o risco-país do Reino da Espanha. Em data tão próxima como o 2015, os países latino-americanos constituirão o mercado preferencial de setores espanhóis muito qualificados: não só o sistema bancário. Também o setor energético (Repsol, Iberdrola, REE, GN-Fenosa), o construtor (ACS, FCC, Acciona) e o gestor de infraestruturas (Ferrovial, OHL, Abertis), entre outros. Por não citar —por óbvia— a fundamental presença da Telefónica em todo o espaço da região. O conjunto das empresas do Ibex obtém mais de 22% das suas vendas nos mercados latino-americanos e a tendência, longe de frear-se, é crescente. Reúnem-se incertezas, naturalmente, mas parecem ser muitas mais as certezas do que as dúvidas.

A consolidação da centralidade econômico-empresarial latino-americana requer, no entanto, alguns desenvolvimentos qualitativos, tanto de ordem política como jurídica. A Espanha- e não só Espanha— tem que se despojar de qualquer tentação hegemônica. Nem sequer estamos em condições de nos considerar um país que seja primus inter pares em relação a qualquer um dos latino-americanos. A Espanha tem caráter referencial no cultural e histórico e sua inserção europeia tentará uma servidão e uma oportunidade ao mesmo tempo: constituir-se como porta primeiramente ao mercado da União Europeia, mas desde que nossa política exterior seja capaz de marcar os vetores fundamentais da relação da UE com a América Latina. Todo um desafio para o que serão sempre úteis as Cúpulas Ibero-Americanas, com a condição de que se depurem de retórica e afundem em políticas coordenadas, acordos sólidos e detecção de novos espaços para oportunidades de colaboração. Nesse contexto de renovado olhar ao conjunto ibero-americano há que se celebrar no próximo mês de novembro a Cúpula de Cádiz.

Na ordem jurídica, a matéria pendente de algumas nações latino-americanas consiste na garantia de que seus mercados funcionem sob o império da previsibilidade que implica a segurança jurídica. O investimento requer certezas e seguranças que vinculem por igual os Governos e as empresas. Isto é, a conformação de regras de jogo que proscrevam a arbitrariedade e não avariem o esquema que requerem os projetos industriais e as apostas financeiras, que consistem na tranquilidade de que o médio e o longo prazo não se verão alterados por arbitrariedades, inconstâncias ou debilidades dos sistemas jurídico-políticos destes países. Se as nações latino-americanas caminham determinadas para a consecução desse lucro-definidor das democracias solventes— o avanço imediato será de gigante.

A Espanha e os países dessa central Latino-América registram —quem diria— um déficit extraordinário de comunicação recíproca, entendida esta como um instrumento de gerenciamento do conhecimento de suas respectivas realidades. O labor prévio à entrada em mercados alternativos-mais ainda quando se crê os conhecer inercialmente— consiste de forma imprescindível em aplicar inteligência empresarial através do entendimento da dinâmica interna dos países de destino. A comunicação, por uma parte, e a implementação de políticas de retornos sociais tangíveis nestes países ainda com bolsas pobreza e infra desenvolvimento importantes são os dois fatores chave do sucesso. Se assim se faz, um dos espaços do planeta mais fértil para o desenvolvimento e a internacionalização de nossa economia é, sem dúvida, o conjunto de países latino-americanos que com o novo século-por méritos próprios e por transformações geoestratégicas— se constituíram na grande faixa central (entre Ásia e Europa) para a economia do século XXI.

Artigo publicado em El País. Espanha

Traduzido por Infolatam

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