Fernando Tuesta: Peru e os conflitos sociais

O socavão político de Humala

Infolatam

Por Fernando Tuesta Soldevilla

(Especial para Infolatam).- Cajamarca, departamento andino ao norte do Peru é hoje o território de maior conflito social para o governo de Ollanta Humala, e representa o que Amazonas foi pára Alan García. Coincide também o fato desses conflitos terem chegado –como nesta semana em Cajamarca- a resultar em muitas vítimas derivadas de conflitos sócio-ambientais, ao redor do investimento em indústrias extrativistas.

Em ambos os casos, o custo político foi a queda dos gabinetes Simon, no governo de García e Lerner, no de Humala. Mas este último caso é mais grave, já que o atual gabinete Valdés está muito desgastado, apesar do governo ter cumprido, recentemente, um ano dos cinco de mandato.

Os conflitos sociais no Peru cresceram substancialmente na última década, como consequência do crescimento econômico, cujo motor é a exportação dos produtos das indústrias extrativistas. Os preços internacionais foram tão altos quanto os ganhos das empresas, sobretudo mineradoras. As facilidades que o marco normativo e a estabilidade econômica que o Peru oferece foram elementos atraentes para o investimento, mas que se localiza justamente nos lugares mais pobres. Ali, a relação que se estabelece entre empresa e comunidade camponesa foi, em geral, conflitiva.

As demandas pela geração de um impacto social na região, ao lado de preservar recursos naturais, uniu uma população, que vê aumentar suas expectativas derivadas da exploração dos recursos, com grupos ambientalistas e radicais de esquerda.

Mas é o projeto de mineração Conga, o de maior visibilidade, por tratar de um investimento de 3.8 bilhões de dólares, o que tem sido barrado em meio a uma paralisação departamental que acontece há vários dias e acumula mortos e feridos.

O governo está em um impasse de grandes proporções. O crescimento econômico permanece, apesar de um contexto internacional adverso, constituindo-se no maior desde algumas décadas. Por um lado, as indústrias extrativistas e, sobretudo a mineração, constituem os maiores rendimentos do país. Derivado dos impostos, regalias e outros rendimentos, o governo investia suas esperanças neles para financiar projetos sociais oferecidos na última campanha.

No entanto, ao lado do crescimento econômico existe um país de baixa institucionalidade e com uma carência de partidos que não permitem a canalização de interesses e conflitos pelas causas regulares. Nem mesmo o governo apoia-se em um partido que possa ser fonte de recursos humanos de direção, como de apoio da sociedade. O próprio presidente da república, com um estilo distante e muitas vezes silencioso, deixou a política interna nas mãos de um premiê -ex militar como ele-, que carece da experiência e dos recursos políticos para manejar uma situação onde líderes regionais radicalizados conseguiram aglutinar uma oposição social anti governamental, que não querem investimento na mineração em general.

É possível um governo aceitar a retirada de investimento na mineração que é o motor do crescimento e de seu próprio projeto governamental? Pode, assim mesmo, submeter-se a um departamento que se converteu em emblemático em sua luta contra a mineração apenas com a repressão sob o pedido de ordem e segurança? Parece que a resposta está no meio destas duas linhas, que são as mais difíceis de conciliar mas que até agora se converteu no grande problema do governo, sem solução aparente, mas que pode custar bem mais caro politicamente do que apenas uma troca do gabinete.

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