Rebelião policial na Bolívia
Infolatam
La Paz, 24 junho 2012
Por Fernando Molina
O ápice do conflito social: os efetivos “anti motins” de La Paz se amotinaram contra o Governo boliviano, exigindo um aumento salarial e a suspensão das leis que eliminaram algumas das fontes de renda da Polícia. Neste momento, a rebelião tende a expandir a outros corpos policiais e passar de La Paz a todo o país. A incerteza que isto gerou fez com que os bancos não abrissem na sexta-feira e não se sabe quais outras atividades coletivas deixarão de ser possíveis em breve.
O que pode ser mais revelador da cultura e a tradição políticas bolivianas que o fato de que a instituição destinada a reprimir o conflito social se converta em uma vítima a mais dela? Esta não é a primeira vez: em fevereiro de 2002 produziu-se outro motim, mais localizado, que no entanto, terminou em um tiroteio entre os polícias “renegados” e os militares que o Governo de então, estupidamente, tinha decidido mobilizar para manter a ordem. Quase vinte pessoas morreram nesse episódio.
Estas ações policiais são sociologicamente interessantes, pois revelam a forma primordial como se concebe a política no país, isto é, uma colisão direta de interesses. Os policiais vão por um pedaço maior da torta, ainda ao preço de trair seu próprio “ser”. Tais são as realidades de um país em que a maioria vive de uma maneira ou outra, do orçamento público (e na pobreza).
Do ponto de vista social, em troca, as insubordinações policiais são muito perigosas, já que rompem o monopólio da força, isto é, a condição que assegura a existência do Estado. Daí que em 2002 os governantes – que eram “iluminados” com o desejo de disciplinar a população– tivessem recorrido ao exército para enfrentar a revolta policial. Não levaram em conta o ódio que separa violentamente ambas as forças, um ódio com raízes históricas (a Polícia apoiou a Revolução Nacional, a qual desarmou o exército), mas também orçamentárias. Então, a partir daí terminassem disparando uns contra os outros por um “quítame estas pajas” (algo sem muita importância). Este desastre não só pôs em dúvida a perdurabilidade do Estado existente até então, senão que a anulou, abrindo o caminho a sua transformação por parte do evismo.
O lógico, então, seria que agora Evo Morales não cometesse este erro e aceitasse que a história nacional lhe arrebata das mãos toda possibilidade de controlar esta situação pela força. O lógico seria que aceitasse a maior parte das demandas policiais, desmobilizasse os protestos imediatamente e, posteriormente, tomasse medidas de maior alcance para recuperar o controle estatal sobre esta instituição, aliviando o mal-estar que se acumula nela há um longo tempo.
No entanto, está claro, não o saberemos até que esta história acabe.
Manchada por uma história completa de manipulação política, a Polícia boliviana carece dos valores e propósitos que “dão sentido” à vida de uma instituição. Deveria estar comprometida com a manutenção da ordem e, ao invés disso, não são poucas as vezes em que contribuiu ao alterá-la, seja diretamente, como agora, ou fazendo a vista grossa ante sua violação por parte de terceiros.
A Polícia boliviana nunca foi um instrumento a serviço do Estado, mas do poder político da hora, que a usou para fazer o “trabalho sujo”: perseguir opositores e facilitar a corrupção. Em troca, as cúpulas dirigentes da instituição obtiveram um conjunto de sinecuras, tais como a provisão de serviços exclusivos (a concessão de carteiras de motorista, por exemplo)nas quais a corrupção galopava.
A suspensão (plausível e necessária) de alguns destas mordomias, decidida por este Governo; a tendência deste de recarregar o peso dos seus erros sobre os comandantes policiais, a quem mudaram e julgaram uma e outra vez, às vezes por atos ordenados por suas próprias autoridades, e –last but not least– o favoritismo de Morales com respeito às Forças Armadas, que são “as meninas dos seus olhos”; tudo isto formou o caldo de cultivo dos atuais acontecimentos.
No entanto, a causa detonante deles foi o encarecimento do custo de vida, que é em contrapartida odiosa pela prosperidade econômica que o país vive. Este problema não o sente tanto a maioria dos trabalhadores, que têm atividades informais e, portanto, possibilidades de aumentar seus rendimentos na medida em que se incrementam suas despesas. Em troca, é demolidor para quem, como os policiais ‘rasos’[policiales de base sem graduação], dependem de um salário fixo.
Estes policiais são algo menos de 30 mil e ganham cerca de 200 dólares, a média mais baixa do que recebe os uniformizados do país. (No entanto –há que dizer– por menos que ganhem, é muito com respeito a sua efetividade como servidores públicos). O objetivo expresso do motim é fechar a brecha entre estes salários e os dos militares. Mas, subjaz outro, não menos importante: “fazer-se respeitar” por uns governantes que sem dúvida se equivocaram ao terem acreditado que é possível sobreviver politicamente na Bolívia sem pactuar com a Polícia.
Se não acontecerem coisas piores por “enfiarem os pés pelas mãos”, o que ao final surgirá deste conflito será, justamente, este pacto.
Traduzido por Infolatam






















