Luis Esteban G. Manrique: México, eleições e narcotráfico
México deserta na guerra contra as drogas?
Infolatam
Madri, 21 de junho de 2012
Por Luis Esteban G. Manrique
“Abraços não balaços” é o lema que Andrés Manuel López Obrador usou em sua campanha para definir os objetivos de sua estratégia de segurança para o México nos próximos seis anos. No último debate com os demais candidatos à presidência, AMLO, como o líder do PRD é conhecido pelos mexicanos, disse que EUA deveria enviar ao país “créditos macios, não helicópteros militares”.
A prova mais clara da derrota das políticas de segurança do presidente Felipe Calderón é que nenhum dos outros candidatos, nem mesmo a de seu próprio partido, Josefina Vázquez Mota, as defendeu. Ao invés disso, a candidata do PAN também apoiou a postura defendida por Enrique Peña Nieto, o candidato do PRI, para quem a prioridade do próximo governo deve ser reduzir a violência e não aumentar a apreensão de drogas que se dirige aos EUA como forma de combater o narcotráfico.
No debate, os três candidatos prometeram que tentarão retirar o exército da luta contra os grupos criminosos e que concentrariam os esforços do Estado para diminuir as desigualdades sociais que incentivam os jovens a se integrarem em organizações criminosas. Peña Nieto advertiu que ainda que continue colaborando com Washington nesse quesito, seu governo “não se subordinará às estratégias de outros países”.
Os adversários políticos do PRI, que veem com apreensão seu regresso ao poder após 12 anos do final de seu reinado de quase sete décadas, denunciam que Peña Nieto está anunciando veladamente uma negociação com os carteis para assegurar uma redução da violência. Isto é, o mesmo ‘modus vivendi’ mantido pelos governos priistas até 2000.
Essa hipótese é verdadeira: os 10 Estados nos quais o PRI nunca deixou de governar, entre eles Tamaulipas e Coahuila, estão entre os mais violentos e corruptos do país. Mas o fato de que a postura de Peña Nieto seja compartilhada, hoje, por AMLO e Vázquez Mota, é uma mostra eloquente do cansaço dos mexicanos com as políticas que resultaram em 50.000 mortes nos últimos seis anos e vários corpos decapitados ou mutilados, entre outras atrocidades semelhantes nas cidades que até pouco tempo eram consideradas seguras, como Guadalajara ou Veracruz.
Nos oito Estados mais violentos do país, Los Zetas, um verdadeiro exército privado que atacou quartéis militares próximos da fronteira com EUA, travou uma guerra de aniquilação com o cartel de Sinaloa de Joaquín ‘Lo chapo’ Guzmán. Lo Zetas atacaram, inclusive, o baluarte sinaloense de Guzmán, provavelmente o narcotraficante mais poderoso e rico do mundo.
Em Sinaloa nasceu, no final do século XIX, o negócio das drogas no México com os primeiros cultivos de ópio trazidos por imigrantes chineses provenientes da Califórnia. Em um território que não é o seu, Los Zetas se comportam como um exército de ocupação, o que provocou uma onda de refugiados da Sierra Madre, onde se encontram os maiores cultivos de amapola e maconha do país. Sinaloa tem 2,7 milhões de habitantes, a metade de El Salvador, mas um número similar de homicídios: 66 por cada 100.000 habitantes. Nos primeiros quatro meses e meio deste ano, foram registrados quatro assassinatos diários em Sinaloa, segundo a promotoria local.
Ambos os carteis são os mais poderosos e melhor organizados do país, ao contar com um fluxo aparentemente ilimitado de dinheiro e armas provenientes dos Estados Unidos. Sua estratégia é eminentemente midiática, teatralizando massacres públicos para aterrorizar seus inimigos e intimidar as forças de segurança.
Diante desse panorama, não é estranho que os assuntos de segurança tenham se convertido na principal preocupação dos mexicanos, muito mais do que a economia, que cresceu 3,9% em 2011 com um déficit fiscal de 2,5% (8,6% nos EUA) e uma dívida pública de 27% do PIB (98% nos EUA). Em 1990, o comércio exterior representava 17,5% do PIB. Hoje essa cifra é de 61%. Cerca de 80% das exportações são produtos manufaturados.
No México de hoje, 65% faz parte da classe média. Desde 1980, o número de estudantes universitários triplicou enquanto o de cartões de crédito quadruplicou desde 2002. Tudo isso revela uma notável modernização da sociedade.
No entanto, muitas coisas não mudaram, sobretudo a falta de confiança dos mexicanos nas instituições públicas: os tribunais, a polícia, os políticos… Mas agora a situação é pior, porque a desconfiança se estendeu em todas as direções à medida em que o crime, os sequestros e as extorsões se integraram no cotidiano da classe média, que não consegue pagar resgates, veículos blindados, equipamentos de vigilância ou guarda-costas.
Em uma pesquisa recente, cerca de 40% disse ter “pouca” ou “nenhuma” confiança na polícia. Apenas 20% diz ter “muita” confiança em seus colegas de trabalho ou de estudo. Essas são as taxas mais baixas dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE), à qual o México pertence.
A metástase do câncer criminoso
Ainda que o consumo de drogas tenha aumentado no México, a maioria dos mexicanos percebe o narcotráfico como um problema fundamentalmente dos Estados Unidos, ao que acusam de indiferença pelo elevado preço de vidas humanas que o país paga por aplicar uma estratégia repressiva e militarista a um assunto que deveria ser abordado com políticas de inclusão social.
Alguns analistas nos EUA advertem que as políticas anunciadas por Peña Nieto preveem uma transgressão do Estado ante a chantagem dos carteis, recordando que durante os governos do PRI, o crime organizado atuava com virtual impunidade. Mas hoje, a metástase do câncer criminoso generalizou-se tanto que quase não há um órgão do Estado que tenha ficado imune. Os narcos, após fazer pactos, são tão silenciosos que terminam convertendo em um governo na sombra. Uma vez dentro do organismo invadido, o câncer é extremamente difícil de se extirpar.
Durante os últimos seis anos as extorsões da máfia em relação a negócios e profissionais liberais estenderam-se de Monterrey a Acapulco. Em 2006, uma pesquisa da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) apontou cerca de 2.700 imigrantes ilegais na cidade de Saltillo (norte) e revelou que 42% havia sido vítima de roubos enquanto o resto havia sido golpeado ou molestado por membros de cada uma das corporações policiais mexicanas com as quais se encontram no caminho.
Peña Nieto prometeu que seu governo criará uma força policial paramilitar sob o modelo da Gendarmerie Nationale francesa ou a Policia civil espanhola, que contaria com cerca de 40.000 efetivos. Esse novo corpo proveria o governo federal com um instrumento que estaria sob seu controle direto, lhe permitindo abster-se das tropas regulares.
O corpo de “Carabineros” colombianos, criado em 2006 para combater as guerrilhas, os paramilitares e os narcotraficantes nas zonas rurais, é o modelo no qual se fixou Peña Nieto. Uma polícia paramilitar estaria, a princípio, melhor preparada para lidar com civis do que os soldados regulares. Apenas em 2011, por exemplo, a Comissão Nacional de Direitos Humanos do México recebeu 2.200 queixas contra oficiais das forças armadas por abusos cometidos contra a população civil.
Mas um corpo militar também não é imune à corrupção. Em outubro de 2008, o recém nomeado ‘zar’ antidroga, Noel Ramírez, foi denunciado por ter recebido 450.000 dólares mensais do cartel de Sinaloa para obter informações antecipadas sobre as operações antinarcóticos do governo. Muitos militares também foram processados por proteger carregamentos de drogas. Um general do Estado Maior do exército foi detido em dezembro de 2008 por aceitar subornos dos grupos criminosos.
























