Quem é e o que faz Mariela Castro nos Estados Unidos

Infolatam
Madri, 03 de junho de 2012
Por Carlos Alberto Montaner

Mariela Castro é uma personagem interessante e contraditória. Trata-se da filha mais velha do ditador cubano Raúl Castro. Como regra geral, os familiares próximos dos déspotas padecem de uma notável dissonância moral. Não são capazes de perceber o dano que seus parentes infligem aos seus semelhantes ou, se percebem, assumem o discurso oficial e o justificam. O amor destorce-lhes o julgamento crítico.

Para Eva Braun, Adolfo Hitler era um patriota alemão que lutava pela grandeza do seu país. Clara Petacci amava tanto Mussolini, parecia-lhe um homem tão virtuoso e terno, que preferiu ser fuzilada junto a ele a continuar vivendo depois de sua morte (até fizeram amor na noite em que os mataram). Se alguém escuta e crê nos filhos de Gadaffi ou aos netos de Trujillo, pode chegar a pensar que o tirano líbio ou aquele dominicano sanguinário eram a imitação perfeita da Madre Teresa.

Para Mariela Castro ocorre o mesmo. Renunciou à objetividade. Como seus pais foram razoavelmente afetuosos dentro de casa, e como lhe deram tudo o que queria, incluindo a mordomia de celebrar sua festa de quinze anos na Europa, algo impensável em um país necessitado, ela escolheu ignorar que Raúl Castro é um ditador responsável por numerosos crimes e de constantes violações dos direitos humanos, continuador de uma dinastia militar meticulosamente incompetente que leva mais de meio século de fracassos e atropelos.

No caso de Mariela Castro a contradição é mais prejudicial porque sua estrutura psicológica não é a de uma fanática inflexível. Seu fanatismo é estratégico. Mariela é tolerante com as preferências sexuais e intolerante com todo o resto. Se uma pessoa quer expressar livremente sua homossexualidade ou sua transexualidade, parece-lhe uma causa justa e a defende a voz ativa. Mas, se uma ou outra criatura pretende expressar livremente suas crenças políticas ou uma visão da realidade social diferente à que postula a ditadura, imediatamente a qualifica como máfia ou escória e justifica que a esmaguem. Para ela, a liberdade e a coerência emocional são algo muito específico situado ao sul do umbigo.

Em todo caso, o que faz Mariela Castro em uma gira pelos Estados Unidos acompanhada por sessenta figurões, entre os quais abundam os policiais? Por mais ingênuo que pareça, com a ajuda de alguns elementos muito radicais da ala extremista do partido democrata, a que se move em torno da revista The Nation, tenta seduzir politicamente o presidente Obama respaldando o casamento gay, enquanto trata de criar uma rede de apoio ao governo de seu pai por meio da coalizão conhecida como LGTB (lésbicas, gays, transexuais e bissexuais).

Para os serviços de inteligência de Cuba, que são o cérebro e o braço executor da política exterior de Havana, o caminho do LGTB, ainda que lhes repugne em seu foro interno, porque essa segue sendo uma ditadura machista-leninista, é o único que resta por explorar para tratar de abrandar um presidente que não levantou o embargo, nem liberou as viagens dos norte-americanos à Ilha, nem pôs em liberdade os cinco espiões presos há mais de uma década, e nem sequer eliminou Cuba da difamatória lista de países terroristas.

É verdade que, desde a perspectiva da ditadura, Obama, como não se cansa de repetir Fidel Castro, tem sido uma total frustração, mas para Havana seria muito pior se nas próximas eleições Mitt Romney se alça ao triunfo e os republicanos voltam à Casa Branca, o que explica que Mariela tenha revelado a verdade de seu jogo: se ela fosse norte-americana, disse, votaria em Obama. Ao dizer essa contraproducente tolice, viajou aos Estados Unidos.

Não obstante, o establishment cubano-americano do partido democrata, totalmente centrista e moderado, bem longe do extremismo do The Nation, não se vai deixar enganar pela estratégia da polícia política castrista. É demasiado grosseira. O influente senador Bob Menéndez, o congressista Albio Sires, Joe García, o ex-embaixador Paul Cejas, entre outros notáveis personagens, e não Mariela Castro são os que ajudam à Casa Branca a definir a política para Cuba, e assim seguirá ocorrendo. Se Obama ganha, será ruim para a ditadura. Se Romney ganha, será pior. A ditadura perde sempre.

Carlos Alberto Montaner é jornalista e escritor. Seu último livro é o romance La mujer del coronel.

Traduzido por Infolatam

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