O fantasma da crise financeira: A panela de pressão do Rio da Prata
Por Nelson Fernández Salvidio
A parte do sul da América Latina acostumou-se ao ciclo repetitivo da crise financeira, e fundamentalmente as pessoas habituaram-se ao fato de que quando os governantes saem publicamente para tratar de acalmar a situação com discursos, mas não com fatos reais, a confiança se acaba. O governo da República Argentina ingressou em um túnel sem saída, e as pessoas já sabem que o final não é bom.
Neste 25 de maio, a presidenta Cristina Fernández participou do “Te deum” da Catedral de San Carlos de Bariloche, pela comemoração do 202 aniversário da Revolução de Maio. Só lhe resta pedir a Deus para evitar a fuga de capitais, para impedir o títulos de pesos argentinos a dólares, para conseguir que ingressem investimentos estrangeiros, para evitar que a inflação contida mediante atos de prepotência se faça visível nos fatos cotidianos.
O Uruguai olha de soslaio para a Argentina que, mais uma vez, cai em medidas econômicas repressivas, das quais já se conhece o resultado final. É um filme muito visto no Rio da Prata. Desta vez, a economia uruguaia e o sistema financeiro de Montevidéu estão muito alheios à realidade argentina. Ninguém está vacinado contra males econômicos, e é claro que se a Argentina anda mau, o Uruguai se vê afetado de alguma maneira.
Mas, enquanto na Argentina o problema está em que o preço do dólar esteja maquiado e disfarçado, no Uruguai a tendência tem sido o contrário, porque uma política cambial flexível fez com que o tipo de mudança oscilasse em valores não desejáveis para a competitividade, mas bastante realista para as condições internacionais.
Da Argentina sai dinheiro. Para o Uruguai entra, e não é de capitais especulatórios, mas de investimento estrangeiro direto.
A Argentina reprime o rendimento de mercadorias, põe barreiras alfandegárias e utiliza métodos não ortodoxos. Seu Secretário de Comércio, Guillermo Moreno, emprega toda sua prepotência e ameaça os importadores, enquanto o Banco Central torna os trâmites cambiais e burocráticos de Aduanas e da administração tributária lentos, jogam à “carreira de obstáculos” para fazer com que as compras no exterior demorem.
A Argentina reprime as operações cambiais, mas os argentinos continuam passando de pesos para dólares, em um tipo de troca mais alto, no mercado paralelo onde “mudaram” a cor do bilhete estadunidense, que não é “verde” mas “blue”, na realidade, porque fica mais simpático do que dizer “dólar negro”.
Mas o governo diz que está tudo bem, que não há razões para “dolarizarse”, que os que fazem isso vão se prejudicar, e inclusive nega que isso esteja sucedendo. Isso foi manifestado na rádio do Estado, quando uma funcionária do governo queria convencer uma jornalista militante do oficialismo, mas com um mínimo de racionalidade para recusar a farsa.
A Secretária de Comércio Exterior, Beatriz Paglieri, que é de extrema confiança de Guillermo Moreno, falou ao radialista Eduardo Anguita, durante uma entrevista na Rádio Nacional. “Não há fuga de dólares!”, disse Paglieri à Anguita quando este lhe perguntava sobre o problema.
Anguita é um militante da esquerda peronista há décadas e esteve preso por mais de 10 anos, por ter integrado grupos guerrilheiros; não é um opositor nem trabalha para o Clarín, nem para a direita nem nada. É kirchnerista. “Mas há fuga de dólares, Beatriz, como que não”, disse Anguita à entrevistada, da qual esperava que transmitisse sinais de confiança, mas não que negasse o fenômeno visível para todo mundo. “É um erro transmitir isso, eu não posso permitir que o faça!”, insistiu a funcionária.
Ninguém explica como, neste fim de semana, as autoridades argentinas revistaram, com cães treinados para sentir o cheiro dos dólares, os carros que cruzavam para o Uruguai.
É que ainda que neguem publicamente, as estatísticas reais não mentem. E a fuga de capitais é contínua. Os que levam “a troca”, dinheiro por não muitos montantes , o fazem em suas maletas ou escondidos nos automóveis, quando cruzam para o Uruguai. Não para depositar ou investir por alto interesse, mas para preservar contra algum mecanismo criativo do governo argentino, que pretenda passar a mão em suas poupanças.
Nada deve assombrar, depois da expropiación de todas as poupanças. De todos. Pela razão do ato do dia da pátria, Cristina Fernàndez falou sobre dólares e pediu ao povo argentino que não compre moeda estrangeira, com o argumento de que isso vai fazer mau à mudança.
A verdade é que a moeda argentina já está desvalorizada, porque há uma mudança oficial, sobre a qual não podem ser realizadas muitas operações, que está em 4.435 pesos argentinos a compra, e 4.48 a venda. Mas esses preços servem para os que, em casos especiais, podem operar com mudanças.
O resto se vê obrigado a ir ao mercado informal (“dólar blue”) e aí custa 5,90 a compra e 5,93 a venda, ainda que na semana passada tenha passado para mais de seis pesos (e a nível minoritário sem capacidade de negociação supera esses preços). Da mesma forma que a inflação, o dado de cotação do dólar também é mentiroso.
“É culpa da direita, dos investidores despeitados, da direita, dos que lançam rumores … dos outros…” Na medida em que o governo não considere a situação com realismo, a sorte está jogada.
São sinais de um filme que já foi visto várias vezes na Argentina.






















