Chile: Uma mensagem presidencial pacífica e de regresso ao realismo
Infolatam
Santiago, 21 de maio de 2012
Por Héctor Soto
Ainda que o cenário para a conta de Sebastián Piñera sobre o estado da nação fosse muito adverso, o sangue nunca chegou ao rio. Os ânimos estavam muito tensos pelos ataques de parlamentares oficialistas à conduta da ex-presidente Michelle Bachelet na madrugada do dia 27 de fevereiro de 2010, depois que a zona central do país experimentasse um terremoto e um tsunami de grande intensidade e proporções.
Diversas vozes tinham anunciado que a Concertación opositora iria se vingar do ataque. Mas, não foi assim. A cerimônia decorreu com inteira normalidade. E de fato a de ontem foi uma das mensagens mais pacíficas e com menores incidentes no Chile dos últimos anos.
Piñera, que chegou ao Congresso Pleno golpeado pelas manifestações estudantis do ano passado e por seus baixos níveis de aprovação nas pesquisas, baixou o tom dos lucros de seu gerenciamento e em duas oportunidades pediu perdão pelos erros cometidos, não obstante, disse que não houve nem um só dia neste período em que ele e seus ministros não tenham se exigido ao máximo.
Já que esta linguagem não é frequente na política chilena, não conta muito reconhecer por trás destes conceitos um governo muito mais ancorado ao realismo político do que o que assumiu há dois anos, em março de 2010, quando a arrogância presidencial e o selo tecnocrata do seu primeiro gabinete fizeram a cidadania crer que agora tudo iria ser muito diferente e muito melhor. O problema para Piñera é que foi diferente, mas não melhor.
Apesar de a economia chilena mostrar sinais de enorme dinamismo que se traduzem em forte crescimento, redução do desemprego, incremento dos salários reais, crescimento das exportações e uma notável recuperação do investimento, Sebastián Piñera insistiu ao longo de sua prolongada intervenção –mais de duas horas ao todo- que ainda fica muito caminho por percorrer. Com 16 mil dólares de renda per capita, o Chile ainda está longe do limiar dos 25 mil dólares anuais dos países desenvolvidos e é uma sociedade na qual se seguem subsistindo enormes brechas de desigualdade.
A ênfase atribuída pelo governo à reforma educacional vai na direção a corrigir essas desigualdades. A tarefa é árdua e será longa. Por isso mesmo, por agora, um dos anúncios mais celebrados do discurso foi a entrega de um bônus básico de 80 dólares a um número que supera o milhão e meio de famílias para atenuar a alta do preço dos alimentos que têm maior incidência na cesta de consumo dos setores mais vulneráveis.
Embora o presidente não tenha reconhecido nesses termos, o problema do seu governo é bem mais político do que econômico. Em apenas dois anos a administração perdeu grande parte do apoio eleitoral que o conduziu à La Moneda por falta de sintonia não só com a cidadania senão inclusive com sua própria base eleitoral. E ainda que a mensagem de ontem não assegura em absoluto que o quadro possa ter mudado, o tom moderado e bem mais social de suas palavras sem dúvida que põe de manifesto o propósito da administração de encontrar maiores coincidências com as grandes maiorias.
O fato de ter invocado na mensagem os nomes próprios de José Joaquín Prieto, o primeiro presidente da república conservadora; de Gabriel Valdés, distinto senador cristão democrata de ampla trajetória; de Nicanor Parra, eminente poeta que recentemente recebeu o Prêmio Cervantes; de três jogadores da seleção do campeonato mundial de futebol de 1962, onde o Chile ficou em terceiro, e de Daniel Zamudio, um jovem mártir deste ano da violência homofóbica, dá conta do propósito do governo de buscar sua identidade em causas e eixos sociais de ampla convocação.
Um dos momentos mais reveladores da mensagem de Piñera foi a exortação à classe política a retomar os grandes acordos, como os registrados nos anos 80, durante a chamada transição política. Nas atuais circunstâncias, quando faltam só seis meses para uma eleição municipal e 20 para a renovação completa do parlamento e do executivo, é difícil apostar à efetividade ou ao realismo de um chamado deste alcance. Mas, mesmo assim, suas palavras são um depoimento da necessidade de não perder a bússola nas lutas conjunturais porque, para além das legítimas diferenças, o país tem enormes desafios que não podem seguir sendo postergados.
Traduzido por Infolatam






















