O que o Papa viu em Cuba

Infolatam
Miami, 02 de abril de 2012
Por Carlos Alberto Montaner

Centenas de milhões de pessoas viram o Papa em Cuba, ouviram seus discursos e contemplaram o que aconteceu ali. Cada uma dessas testemunhas, como é natural, percebeu a visita de maneira diferente. Agora, o interessante é saber qual foi a percepção do Papa e de seu clã. Isto é, o que ele pôde averiguar de acordo com fontes eclesiásticas (e outras) que desejam manter o anonimato. Algumas dessas fontes estiveram bem perto do pontífice.

Primeiro. Bento XVI surpreendeu-se com o imenso contraste entre a acolhida mexicana –alegre, livre, multitudinária e espontânea–, no meio de uma cidade viva e economicamente vibrante, e as tensas cerimônias cubanas, evidentemente controladas pela polícia política, realizadas em um país pobre, que chega a ser miserável, precedidas por centenas de detenções. O espetáculo horrendo de um jovem selvagemente golpeado por um policial disfarçado de funcionário da Cruz Vermelha tocou o coração e despertou o interesse do Papa em relação ao seu destino.  Afinal de contas, o pobre homem só tinha gritado “abaixo o comunismo”, versão popular do que o próprio pontífice disse ao sair da Itália, quando declarou que o marxismo era uma ideologia fracassada e que deveria ser enterrada.

Segundo. Pareceu lamentável tanto para o Papa, como para a sua comitiva, que Raúl Castro pronunciasse em Santiago de Cuba o clássico discurso estalinista da guerra fria com o qual tentou justificar a ditadura. Esperavam uma mensagem de mudança e de esperança, não de reiteração das linhas mestres do regime. Esse texto, junto com os discursos que o chanceler Bruno Rodríguez e o vice-presidente a cargo do setor econômico, Marino Alberto Murillo pronunciaram, os convenceram de que Raúl Castro está bem mais interessado em se manter ancorado no passado do que em preparar um futuro melhor para os cubanos.

Terceiro. Comprovaram, com dor, que o pedido de João Paulo II durante sua visita há 14 anos, para que os cubanos perdessem o medo, foi inútil. Salvo algumas centenas de democratas da oposição, permanentemente acossados e golpeados, e às vezes encarcerados, essa é uma sociedade tomada pelo medo. Mas a manifestação de medo que mais intrigou o Papa e sua comitiva não foi a dos opositores, mas a dos aparentes partidários. Conheceram muito de perto o o duplo discurso e isso os aterrorizou. Quando falavam a sós com os servidores públicos, estes se manifestavam abertos, tolerantes e desejavam reformas profundas que abarcassem o terreno político. Um, de forma reservada, até chegou a admitir que o multipartidarismo e as eleições livres eram necessários para que a sociedade realmente avançasse para a modernidade, ainda que os comunistas perdessem o poder. Mas, logo que chegava outra pessoa para a conversa, ou apareciam os jornalistas, retomavam o discurso ortodoxo mais inflexível e estalinista, repetindo o roteiro oficial sem excluir uma única vírgula. Era um espetáculo muito penoso.

Quarto. O Papa e sua comitiva confirmaram o que já previam: a Igreja cubana está incidida em duas linhas claríssimas: a do cardeal Jaime Ortega, colaborador ao extremo, de pedir à força pública que desalojasse um templo ocupado por um grupo de fieis de uma determinada paróquia que desejavam protestar contra a ditadura, mesmo sabendo que seriam detidos e seguramente maltratados, e a de bispos como Dionisio García Ibáñez, quem foi engenheiro antes de se ordenar como sacerdote, bem mais firme em sua rejeição ao regime cubano. Enquanto Jaime Ortega fica no âmbito da compaixão por algumas vítimas do governo (evidentemente não de todas), Dionisio (mesmo sendo amigo do Cardeal) e outros sacerdotes, como o famoso José Conrado Rodríguez, pároco em uma igreja de Santiago de Cuba, estão convencidos de que não haverá alívio nem reconciliação entre os cubanos até que esse regime não seja pacificamente substituído por uma verdadeira democracia, que leve em conta as opiniões de toda a sociedade e não somente a de um punhado de ultra-comunistas enredados nas teias de aranha do passado.

Quinto. O papa comprovou que seu contemporâneo Fidel Castro –têm a mesma idade—está em piores condições físicas e mentais do que ele. Encontrou um “velhinho” fisicamente desvalido, mentalmente confuso e com graves dificuldades para comunicar-se. Está liquidado. O Papa, que é um homem bom, orou por ele. Esse é o costume cristão.

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