É o fim das Farc?
Infolatam
Oxford, 6 novembro 2011
Por Eduardo Posada Carbo
Em quase meio século de existência, desde sua fundação ofical em 1966, as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), teve dois chefes: Manuel Marulanda e Alfonso Cano. O primeiro, seu fundador, morreu doente em 2008, após 42 anos frente ao grupo guerrilheiro. O segundo foi morto pelo exército colombiano neste 4 de novembro, apenas três anos depois de ter se convertido no novo líder das Farc. Esse fato, em si, é talvez revelador das mudanças ocorridas na evolução do conflito armado colombiano durante a última década.
O Presidente Juan Manuel Santos tem razão ao assinalar que a queda de Cano “é sem nenhuma dúvida, o golpa mais importante que se deu na história da luta contra esse grupo subversivo”. Significa o começo do fim para as Farc? Quais efeitos políticos e sociais terá esse triunfo do Estado contra a cúpula guerrilheira?
Se bem que até agora o “mais importante”, a morte de Cano, é o mais recente de uma série de golpes bem sucedidos contra as Farc na última década. Vários membros do Secretariado Geral, que congrega os altos comandos da organização guerrilheira, têm sido mortos em combate. Outros comandantes têm sido assassinados pelos próprios membros das Farc (Ivan Ríos), ou capturados e extraditados aos Estados Unidos (Símon Trinidad), ou tem desertado de suas filas (Karina) – ver “Los golpes”, em www.semana.com.
Mais além dos comandantes, os números se multiplicam. Em apenas um ano, segundo cifras oficiais, se tem desmobilizado uns 1.300 guerrilheiros, enquanto outros 1.400 foram capturados e 365 mortos em combate. Adicionalmente, o estado vem tendo bons êxitos na liberação de sequestrados por parte das Farc, incluída a de Ingrid Betancourt. Dois dos golpes mais significativos contra as Farc tem ocorrido nos últimos 14 meses: em setembro de 2010 o exército matou o “Mono Jojoy“, sua estrategista militar, e agora Alfonso Cano, seu estrategista político. A queda de Cano deve ser entendida em esse amplo contexto, onde o estado colombiano, com um exército fortalecido sob as últimas administrações, tem modificado suas políticas e estratégias frente às Farc e o conflito armado.
Contudo, o golpe contra Cano não é simplesmente um golpe a mais. Ainda que alguns analistas advertem que o Secretariado das Farc é composto por sete pessoas, não apenas um chefe, se trata de uma organização hierárquica que apenas levava três anos de recomposição após a morte do “líder legendário” que deu boa parte de sua fisionomia por mais de quatro décadas. Como resultadp dos recentes golpes, as sucessivas rotações na cúpula do Secretariado devem ter tiido um impacto na falta de consolidação do comando das Farc depois da morte de Marulanda. Além disso, como já foi sugerido, a queda de Cano é profundamente simbólica. “Acabou o mito”, observou José Antonio Sánchez, subeditor do jornal El Tiempo, “ de que máximo comandante das Farc era intocável”.
Mito que vem associado à idéia de que às Farc não se pode derrotar militarmente. Claro que a morte de Cano está longe de representar a derrota militar das Farc, mas é possível prever seu enfraquecimento: maior desmoralização em suas filas e até em seus comandos, e o incremento das deserções. Outro impacto prático da queda de Cano poderia ocorrer no terreno da inteligência, já que, como escreve Juanita León no portal lasillavacía.com, na operação contra o chefe das Farc encontraram sete computadores e 33 memórias USB; e essas teriam informação sobre as redes da organização guerrilheira.
O golpe contra Cano fortalece obviamente a posição do presidente Juan Manuel Santos, quem chegou ao poder em agosto de 2010. Paradoxalmente, sua política de segurança havia sido objeto, dias atrás, de críticas por seu antecessor, Alvaro Uribe Vélez, em cujo governo Santos foi Ministro da Defesa. Segundo Uribe, o exército colombiano estava desmoralizado. Suas críticas têm ficado agora sem fundamento. Sem se referir a elas diretamente, o Presidente Santos aproveitou sua intervenção televisiva após a morte de Cano para enfatizar que as forças armadas colombianas “jamais têm baixado a guarda”: seguem combatendo “com vocação e valor para banir o terrorismo e a violência”. Santos não se mostrou triunfalista. Insistiu na continuidade da política estatal de “restabelecer a autoridade do estado” em todo o território nacional. E enviou às Farc uma mensagem de desmobilização com “todas as garantias do Estado”.
“É prematuro determinar” – observou um editorial do El país em Madri, se Santos contempla “algum tipo de negociação”, ou aspira, “à derrota pura e simples dos insurgentes”. Essa é uma falsa dicotomia. Desde sua inauguração como Presidente, Santos advertiu que as portas da paz estavam abertas, sempre e quando a guerrilha abandonasse o terrorismo, sua violência e seus sequestros. A política de segurança democrática da anterior administração também contemplava a possibilidade de uma negociação, mas nos términos do estado, que excluíam a possibilidade de regressar aos diálogos nas mesmas condições dos prévios processos de paz. A morte de Cano não significa o fim das Farc. Contudo, é possível que seu enfraquecimento militar sustentado logre criar as condições propícias para a paz duradoura, tão desejada pelos colombianos.






















